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Posts Tagged ‘lirismo’

“Será que encontraria a casa dos meus antepassados? Que a chave seria a mesma? Eu tentava acreditar nessa história que tinha inventado para mim mesma, nessa história que ainda invento e que é a única capaz de me dar alguma resposta. Nessa história que pode ser a mais descabida, mas também a mais real. Não sei até que ponto é verdadeiro o que vivo agora. Nem mesmo sei se é verdadeira a minha viagem. Parece que quanto mais me aproximo dos fatos, mais me afasto da verdade” (P. 99).

Quando eu ganhei este livro, no meu aniversário, a primeira coisa que ouvi quando o pacote foi desembrulhado é que o livro que eu tinha em mãos era maravilhoso.

Normalmente, quando ouço este tipo de comentário, dito com certo entusiasmo, a minha primeira reação é desconfiar do que estou ouvindo, seja porque aprendi a controlar razoavelmente o ímpeto e a expectativa dos outros, seja porque eu sou um pouco (?) blasé mesmo.

Todavia, devo dizer: o livro que eu estava segurando era realmente maravilhoso!

“A Chave de Casa” foi o livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2008 na categoria “Melhor Livro do Ano – Autor Estreante” e ainda foi finalista no honroso Prêmio Jabuti, que já premiou o excelente “Viva o Povo Brasileiro”, do conterrâneo João Ubaldo Ribeiro.

De acordo com Tatiana Salem Levy, o livro é um romance de “autoficção”. É que, da mesma maneira que a autora, a personagem principal do livro é neta de judeus turcos, nascida em Lisboa, emigrada para o Brasil aos nove meses de idade (eu li em diversos lugares que ela se sente brasileira).

Não sei se as semelhanças param por aqui, mas tive a sensação que não. Da mesma forma que a personagem principal tem necessidade de encontrar o seu lugar no mundo, acredito que esse quase road livro (isso existe? Rs) também faz parte do processo de autoconhecimento e busca pela identidade perdida entre a Turquia, Portugal e o Brasil.

Curiosamente, as únicas personagens que são nomeadas no livro são as que a personagem principal não conhecia ou não ficou íntima, no decorrer da história. Todas aquelas que são diretamente responsáveis por uma parte da alegria e da tristeza da personagem não tem nome, não tem rosto, não tem definição, a não ser pelos olhos: ou são olhos de azeitona (os turcos ou descendentes) ou tem olhos claros. Nem mesmo a personagem principal tem nome.

A minha tendência é não gostar desse (falta de) recurso no romance, mas o livro é tão bom, tão bem escrito, tão maduro, tão seguro, tão maravilhoso de se ler que eu não consegui me prender a isso para deixar de ler o que Tatiana Salem Levy estava me contando.

Recomendo o livro no seu mais alto grau. Isso sim é literatura feminina.

O meu livro foi presente; não sei o seu valor, mas caro não deve ser.

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Eu descobri este autor em um blog de culinária no qual a autora, Fabrícia, é, pelo que percebi, grande estusiasta da obra do moçambicano: na maioria (se não for em todas) das fotos postadas há uma legenda com frase de Mia Couto.

Fui me interessando e busquei a sua obra. Comecei pelo seu mais recente trabalho; que ele, inclusive, veio lançar na FLIP.

Bem, o que eu preciso dizer inicialmente que eu adoro textos metafóricos, frases com muitas imagens e idiossincrasias. E Mia Couto escreve exatamente assim: o seu livro é posia em forma de prosa, como podemos observar das duas frases que mais me chamaram a atenção: “O silêncio é música em estado de gravidez” ou “Sentir raiva é outra forma de chorar”.

Suas personagens são muito bem construídas e a história é contada por Mwanito (personagem principal cujas sensibilidade e delicadeza me lembraram muito um amigo meu), que conta a história da sua infância à fase adulta e é conhecido – ou rotulado – como “afinador de silêncios”.

A história contada é dividida em três livros: A humanidade; A visita; e Revelações e Regressos.

Basicamente, o livro conta a história de um pai (Mateus Ventura/Silvestre Vitalício) que, após a morte de sua esposa, Dordalma, vai-se embora do mundo levando seus dois filhos (Olindo Ventura/Ntunzi e Mwanito), um ajudante (Ernestinho Sobra/Zacarias Kalash) e, ocasionalmente, o seu cunhado (Orlando Macara e Tio Madrinho/Tio Aproximado) em direção ao interior do país no intuito de esquecer do mundo e de ser esquecido por ele – tanto que rebatizou todas as pessoas, à exceção de Mwanito, que foi para Jerusalém, o novo planeta deles, bem pequeno.

A trama só demonstra, em dois momentos, que se passa no período contemporâneo: a inscrição das palavras “internet” e “telemóvel” (o livro é vendido no Brasil com a língua portuguesa original, como nos livros de Saramago). Acaso não tivessem sido escritas, poderíamos ter certeza de que a história não é datada, completamente atemporal.

Após a morte de Dordalma, nenhuma das personagens se despediu da defunta, não passaram pelo saudável período de luto: segundo Mia Couto em entrevistas pré-FLIP, isto é caracterizador do seu povo, tendo em vista que faz-se a opção (em todos os aspectos) de voltar ao passado para curar feridas, ou simplesmente fingir que estas não existem.

O livro é de uma sensibilidade perturbadora e é muito bem escrito: eu amo ainda Mwanito, e apesar de ter odiado por grande parte do livro o seu pai e ter querido matá-lo diversas vezes, eu não consegui me separar do livro.

Indico a leitura àqueles que gostam de textos metafóricos e têm amor às temáticas melancólicas e lindas, como eu.

O livro é encontrado nas livrarias por R$ 42.

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{Obrigada, Gaby, pelo livro! Eu amei meu presente de aniversário!}

Ao me verem com o livro de Somerset Maugham na mão, duas de minhas tias começaram a falar de um outro livro do mesmo autor, “O fio da navalha” e também a comentar sobre um dos filmes que originou-se de “O véu pintado” (até agora foram 2 filmes), que aqui no Brasil ganhou o infame nome de “O despertar de uma paixão”.

Então, comecei a pesquisar sobre ele e a sua maneira de escrever e, como me é peculiar, fui rememorando o filme e pensando: “ah, mas é apenas mais um romance, uma história de amor, é melhor não criar expectativas” e inventei de criar a expectativa de não criar expectativa.

Só que, mais uma vez, eu me enganei (esta deve ser a frase mais escrita deste blog!). Encontrei no autor aquilo que pode se aproximar do narrador perfeito: nem lacônico como Bernhard Schlink, nem excessivamente prolixo como J. R. R. Tolkien.

Assim, mesmo que eu não tivesse visto “O despertar da paixão” eu iriaa ser transportada para o magnífico e misterioso interior da China nos anos de 1920; ou saberia como era a princesa manchu; ou como era apresentada a cólera àquela época.

Talvez, até, eu esteja fazendo uma injustiça com o livro: pensando bem, as imagens do filme não são tão bem feitas como no livro porque há carência de detalhes.

O livro conta a seguinte situação: uma mulher, Kitty, se casa rápida a e convenientemente com Walter, bacteriologista que trabalha para o governo inglês na China. Entediada com o casamento, tem um caso extraconjugal e o marido, ao descobrir, vinga-se voluntariando-se para trabalhar numa vila no interior da China em que acontece um surto de cólera.

Acredito que se trata, na verdade, muito mais de uma jornada de autoconhecimento de uma mulher do que a história de um casal, a distância que pode haver entre eles ou a falta de amor dos dois.

Acredito que o livro não é atual, mas pode tornar-se se o leitor transpuser as barreiras de padrões e comportamentos sociais para situar apenas os sentimentos das personagens à nossa época.

O livro é encontrado nas livrarias pelo preço médio de R$ 35.

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“Esta noite papai ficou sentado comigo. Trouxe o acordeão cá pra baixo e se sentou perto de onde o Max costumava sentar. (…) O acordeão respira. (…) Às vezes acho que meu pai é um acordeão. Quando ele olha para mim, sorri e respira, eu escuto as notas”.

A cada livro que leio, filme que vejo ou música que escuto eu me convenço um pouco mais do quanto eu estou certa: de fato, beleza e tristeza são amigas bem próximas, loucas para se fundir numa só, de tanto que se gostam.

Devo confessar que quando foi lançado esse livro eu não quis nem chegar perto, mesmo tendo ouvido ótimas opiniões sobre ele (Sol!): lista de best sellers geralmente me enojam e me afastam destes livros. Maaas, como foi um dos meus presentes de aniversário… Ah, como me arrependo de não ter lido antes!

Primeiro de tudo, ignore, como foco principal, que esta é uma história que se passa no período da Segunda Guerra Mundial.

A narradora é a Morte, e ela narra de uma maneira muito peculiar (eu nunca tinha visto isto num livro): ela vai adiantando a história, tem pressa que o leitor saiba logo do que vai acontecer.

Ainda sobre o primeiro foco do livro: a menina Liesel é tão bem construída por Marcus Zusak que vai ser disputada à tapas pelas melhores atrizes (espero que alemãs, e não americanas). As mudanças que acontecem com ela ora são bruscas, ora são sutis e é impossível não se apaixonar por ela nem pelo seu modo de pensar e de ver a vida.

Existem, ainda, as personagens secundárias, que ajudam muito a compor essa delicada história: o pai de olhos prateados, a mãe de corpo de guarda-roupa, Rudy de cabelos cor de limão, Max de cabelos de plumas, as inúmeras Fraus da Rua Himmel e, claro, o Fürher plantador de árvores de símbolos e sementes de palavras, e aqueles que colheram os frutos disso.

A história começa com o encontro da Morte (a narradora!) com Liesel quando o seu irmão morre. Ela estava sendo levada para adoção e conheceu, então a Rua Himmel, os seus moradores, desenvolveu dons, viveu aventuras infantis, aprendeu a ler, dominou as palavras, apreciou música, levou gritos e mais gritos, correu, se apaixonou, escondeu o “inimigo”, sofreu e fez o melhor sabia: encantou o leitor.

Acredito que este livro é leitura obrigatória e não mudaria uma vírgula sequer dele.

Mal posso esperar pelo filme.

O livro é encontrado facilmente e o seu preço médio é de R$ 15.

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“Aquilo que não tem nome, é isso que nós somos”.

O livro comentado esta semana é “Ensaio sobre a cegueira”, escrito pelo ganhador do Prêmio Nobel José Saramago.

Cada livro que se lê marca uma mudança de pontos de vista no tocante à nossa vida mas, “Ensaio sobre a cegueira”, com certeza, mudou, drasticamente, a minha visão do mundo: nunca li um livro que demonstra, tão fidedignamente, a natureza e instintos humanos.

O livro despiu o homem demonstrando quais são as suas reais necessidades básicas, rememorando aquilo que insistimos em esquecer: nós não precisamos de quase nada para viver!

Além desse aspecto, é importante notar que a ausência de nomeação das personagens tem um grande efeito sobre o leitor: nós não temos a chance de nos afetuarmos à elas, nos mantemos distante delas porque as trransformamos em coisas, vez que nem elas permanecem conscientes de suas identidades.

É válido notar este detalhe porque é justamente desta maneira que nos permitimos nos identificar com as pessoas do livro: através do anonimato, inseridos em nossa zona de conforto e sem que ninguém mais saiba quais são as nossas verdadeiras raízes.

Outra questão instigante é a seguinte: o fato da pessoa assassinar um outrofaz dela uma homicida? E quando os nossos institntos mais primitivos são aflorados (como disse certa vez Roberto Jeferson)? A vingança e a necessidade de fazer parar uma situação insuportável?

Dia desses eu ouvi no rádio que um homem apelidado Robin Hood foi preso em Brasília (DF) (são vários os casos) porque saqueou um supermercado e distribuiu os alimentos saqueados numa invasão situada na região Estrutural.

Não obstante eu compreender a necessidade de se proteger a propriedade privada e, e, razão da quantidade de mercadorias, este não ser considerado um furto famélico, até que ponto é possível classificá-lo como criminoso (apenas no tocante a este fato)?

Tenho minhas dúvidas acerca da culpabilidade deste rapaz…

Retomando o assunto central do post, uma passagem muito interessante do livro que foi demonstrada ao leitor com as falas do narrador, no filme (de Fernando Meireles) nós temos uma idéia ainda melhor: o auto-intitulado Rei da Terceira Camarata foi transposta para o cinema através de atos e palavras, como que para facilitar e agilizar rapidamente a absorção da questão: não é porque todos se tornaram cegos é que são bons.

A falta de saúde física não provoca a instantânea bondade e solidariedade humanos, diz Saramago.

Me chamou a atenção, também, a responsabilidade que toma para si a Mulher do Médico, por ser a única que não perde a visão. Ela se sente na obrigação de cuidar dos outros, como se por eles enxergasse. Ao mesmo tempo, ela sente culpada por ter olhos úteis enquanto todos os outros de seu país já não podem ver nada além do branco.

A intenção do autor, acredito eu, foi justamente demonstrar que nós temos, sim, responsabilidades diante de nossos atos e dos outros, já que a vida depende de todos e de cada um, em específico.

Então, diante de tantas gripes suínas, dengues, meningites e outras doenças avassaladoras, é impossível não se transportar para as páginas do romance português, e não sentir, mesmo que aravés de disfarces, um medo muito grande de ser um livro premonitório.

Como mencionado acima, o livro virou filme pelas mãos de Fernando Meireles, tendo no elenco Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover e Gael García Bernal.

O livro está à venda em todas as livrarias e o seu preço varia entre R$ 30 e R$ 45.

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“A verdade do que se conta está no modo como se é”...

A minha primeira sensação ao ler esse livro (eu vi o filme antes, eu prefiro) é que não se trata de uma história de amor. Primeiro de tudo eu percebi que se trata de uma maneira desesperada de seduzir o leitor para que se possa auxiliar o narrador a exorcizar as suas culpas.

No final das contas, a gente percebe: as culpas sempre estiveram, estão ou estarão lá, mas, de maneira alguma, serão imutáveis ou não irão variar, ao longo da narrativa (e de nossas vidas, pode-se dizer), o seu grau de complexidade.

É impressionante a maneira que Bernhard Schlink demonstra que os questionamentos de Michael Berg poderia ser de qualquer um, mesmo aqueles que não são juristas!

A questão que mais me chamou atenção no livro foi a maneira como o alemão não judeu é retratado: aquele que não participou da guerra, que não tem qualquer responsabilidade diante dos acontecimentos inquestionavelmente absurdos que aconteceram deve se sentir culpado pelos seus antecessores na história político-social do país?

Uma vez eu vi uma entrevista, na qual o entrevistado dizia que as gerações 80/90 lutavam, nos anos posteriores à ditadura militar, contra a direita, incansavelmente, sem qualquer razão. Não olhávamos para o futuro, ficávamos somente presos ao passado…

Ora, nós não fomos diretamente afetados! Não sofremos na pele o que nossos antecessores sofreram, tampouco fomos responsáveis pelo seu sofrimento! Lutamos a troco de quê? Qual é a razão de repetirmos padrões?

Voltando ao livro, o narrador mostra o conflito interno que vive: como pode amar alguém que foi responsável por tantas coisas abjetas? Após o seu encontro com Hanna, toda a sua vida foi levada a uma outra estrada daquela previamente traçada, todas as suas atitudes e pensamentos tomaram novo rumo e é interessante ver nele o espelho de nós: vivemos diuturnamente em conflito, com grandes desafios morais e éticos à nossa volta, aguardando uma atitude que possa alterar o foco da questão.

Além disso, vemos que, apesar de tudo, existe amor. É um amor realista, ciente de si e da realidade que o moldou, nada semelhante às ideias idiotas que alguns veículos de cultura transmitem: o sentimento é problemático, torto e, ainda assim, lhe é permitido permanecer, aguentar o que há de pior no seu contexto.

Me interessei também pelas pesquisas do narrador (seriam elas próprias de Bernhard Schlink?) no âmbito do direito, especialmente no tocante aos artigos do código penal, interessante notar o conceito de ordem mundial que deve ser sempre zelada, como se já estivéssemos em ordem antes do fato delituoso.

Recomendo a leitura.

Foi transformado em filme pelo diretor Stephen Daldry e teve como atores principais Kate Winslet (ganhou o Oscar pelo papel), Ralph Fiennes e David Kross.

O livro está à venda em todas as livrarias e o seu preço médio é de R$ 25.

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