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Posts Tagged ‘nazismo’

“O bem sem o mal é tão pouco adequado ao homem que o mal sem o bem” (P. 259).

“Às vezes tenho saudade do Ulisses que aprendeu com Wenzel Strapinski as astúcias e mentiras de um impostor, que partiu impacientemente em direção à vida, procurou por aventuras e as superou, conquistou minha mãe com seu charme, escreveu com prazer ‘Leituras leves e divertidas’ e inventou teorias com uma facilidade quase lúdica. Mas eu sei que essa não é uma saudade de Johann Debauer ou de John de Baur. É apenas uma saudade de uma imagem que fiz de meu pai e que está impregnada em meu coração” (P. 366 e 367).

Se é possível que exista um livro de Bernhard Schlink que seja, para mim, ainda melhor (com toda a carga que essa palavra traz) que “O Leitor”, este livro, com certeza, é “A Volta Para Casa”.

O livro trata da investigação de Peter Debauer (Graf, Bindinger…) que se transforma na grande busca de sua vida, uma odisséia real.

Explico: Peter, personagem principal, desobedece a ordem de seus avós ao ler o manuscrito de um romance e, por estar sem o final da história em mãos, vai atrás do desfecho.

Assim é que, curioso acerca do final da história de retorno do soldado alemão Karl depois da fuga da Sibéria durante o fim da Segunda Guerra Mundial, ele vai trilhando o caminho desse soldade para descobrir o fim do romance e, sem saber, acaba respondendo às questões de fatos de sua vida que ele sempre se perguntou, encontrou a mulher amada e passou a entender o quanto desastrosa pode ser a realidade em razão das expectativas que colocamos nela.

À medida que fui avançando no livro eu pude confirmar o quão maravilhoso Bernhard Schlink é e o quanto ele me atinge: como bom professor de direito e, especialmente, filosofia, ele não me mostrou diretamente em nenhum momento o que pensava ou entendia sobre qualquer assunto: ele simplesmente permitiu, com suas palavras, que as questões surgissem e que eu buscasse em mim as respostas delas para depois chegar às conclusões, assim como fez Peter Debauer.

Se eu tivesse que definir este livro em poucas palavras, seriam, com certeza, estas: brilhante, perturbador e esclarecedor.

Adoraria ver este filme como um típico filme alemão, maravilhoso e perturbador, como “A Vida dos Outros” ou “A Onda”, mas não tenho muitas esperanças que isso aconteça.

A minha única lamentação quanto ao livro é não conhecer ninguém que tenha lido ou que estivesse lendo na mesma época que eu para poder comentar sobre ele, como num clube de leitura.

Compra-se o livro por R$ 39,90.

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“Esta noite papai ficou sentado comigo. Trouxe o acordeão cá pra baixo e se sentou perto de onde o Max costumava sentar. (…) O acordeão respira. (…) Às vezes acho que meu pai é um acordeão. Quando ele olha para mim, sorri e respira, eu escuto as notas”.

A cada livro que leio, filme que vejo ou música que escuto eu me convenço um pouco mais do quanto eu estou certa: de fato, beleza e tristeza são amigas bem próximas, loucas para se fundir numa só, de tanto que se gostam.

Devo confessar que quando foi lançado esse livro eu não quis nem chegar perto, mesmo tendo ouvido ótimas opiniões sobre ele (Sol!): lista de best sellers geralmente me enojam e me afastam destes livros. Maaas, como foi um dos meus presentes de aniversário… Ah, como me arrependo de não ter lido antes!

Primeiro de tudo, ignore, como foco principal, que esta é uma história que se passa no período da Segunda Guerra Mundial.

A narradora é a Morte, e ela narra de uma maneira muito peculiar (eu nunca tinha visto isto num livro): ela vai adiantando a história, tem pressa que o leitor saiba logo do que vai acontecer.

Ainda sobre o primeiro foco do livro: a menina Liesel é tão bem construída por Marcus Zusak que vai ser disputada à tapas pelas melhores atrizes (espero que alemãs, e não americanas). As mudanças que acontecem com ela ora são bruscas, ora são sutis e é impossível não se apaixonar por ela nem pelo seu modo de pensar e de ver a vida.

Existem, ainda, as personagens secundárias, que ajudam muito a compor essa delicada história: o pai de olhos prateados, a mãe de corpo de guarda-roupa, Rudy de cabelos cor de limão, Max de cabelos de plumas, as inúmeras Fraus da Rua Himmel e, claro, o Fürher plantador de árvores de símbolos e sementes de palavras, e aqueles que colheram os frutos disso.

A história começa com o encontro da Morte (a narradora!) com Liesel quando o seu irmão morre. Ela estava sendo levada para adoção e conheceu, então a Rua Himmel, os seus moradores, desenvolveu dons, viveu aventuras infantis, aprendeu a ler, dominou as palavras, apreciou música, levou gritos e mais gritos, correu, se apaixonou, escondeu o “inimigo”, sofreu e fez o melhor sabia: encantou o leitor.

Acredito que este livro é leitura obrigatória e não mudaria uma vírgula sequer dele.

Mal posso esperar pelo filme.

O livro é encontrado facilmente e o seu preço médio é de R$ 15.

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Está sendo extremamente dificultoso conseguir traduzir as minhas sensações deste livro: primeiro porque são muitos detalhes que compõem a história; segundo porque foram muitas, muitas sensações!

Eu ri, me indignei, chorei, me emocionei, me identifiquei com a história contada no livro. Aliás, a história não: as histórias.

Resumidamente, foram escritas histórias de 1791, 1941 e dos anos 2000. Foram, incontáveis as personagens, mas, as principais foram 4 (de 1971), 3 (de 1941) e 3 (dos anos 2000).

Não existe nenhuma parte mais intressante que a outra, assim como não há nenhuma personagem melhor que outra, apesar, é claro, do leitor desenvolver a sua predileção.

O livro nasceu da necessidade de Jonathan (ou Jon-fen, rs) percorrer o caminho trilhado pela sua família na Ucrânia, até chegar o momento que ela se transforma em refugiada da II Guerra Mundial.

Para isso, ele contrata uma agência de turismo especializada em trazer os judeus que querem conhecer as suas origens ucranianas. É aí que ele conhecer Alex (ou Sasha) e o seu avô, também Alex.

A história da família de Jonathan começa com Brod, a mãe da mãe da mãe de sua tataravó. Ela perdeu a sua família e teve que recomeçar tudo quando foi adotada por Yankel. Por motivos não explícitos no livro (ou seja, cabem diversas interpretações), ela era uma pessoa incapaz de amar e isso se tornava uma forma de amor, que guiou a sua vida e que transformou todo o shtetl.

A segunda parte da história é a vida na Ucrânia do avô de Jonathan: ele conta os seus amores, descobre coisas na viagem e, especialmente, conhece o seu avô, que ele não teve oportunidade de fazer quando este era vivo. Apesar disso, eles são muito conectados.

A terceira parte do livro que diz respeito ao Jonathan é aviagem à Ucrânia propriamente dita (só que contada por Alexander Perchov, o Alex ou Sasha).

No que concerne Alex-avô, eu acho que ele foi a personagem que eu mais gostei. Ele inicia no livro de forma silenciosa e você acha que até vai odiar ele, que é preconceituoso e grosseiro. No fim das contas, percebe-se, que ele está apenas cheio de defesas e escudos, assim como o seu neto, Alex.

Ambos vão se desarmando no decorrer da história, cada um desamarrando um nó que fazia o entrave entre a verdade e o relacionamento deles dois e de cada um com o resto do mundo.

As vivências dos dois e entre os dois vão se explicando e amolecendo, e o leitor passa a se afetuar aos dois, aprendendo com eles e se previnindo, para não criar uma casca grosseira e impenetrável como ambos possuíam antes da viagem com Jonathan.

Sem dúvida, esse é um dos melhores livros que já li. Lindo, lindo, lindo.

O livro transformou-se em filme pelas mãos de Liev Schreiber e teve Elijah Wood e Eugene Hutz (do Gogol Bordelo) no elenco.

O livro é encontrado facilmente e o seu preço médio é de R$ 55.

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“A verdade do que se conta está no modo como se é”...

A minha primeira sensação ao ler esse livro (eu vi o filme antes, eu prefiro) é que não se trata de uma história de amor. Primeiro de tudo eu percebi que se trata de uma maneira desesperada de seduzir o leitor para que se possa auxiliar o narrador a exorcizar as suas culpas.

No final das contas, a gente percebe: as culpas sempre estiveram, estão ou estarão lá, mas, de maneira alguma, serão imutáveis ou não irão variar, ao longo da narrativa (e de nossas vidas, pode-se dizer), o seu grau de complexidade.

É impressionante a maneira que Bernhard Schlink demonstra que os questionamentos de Michael Berg poderia ser de qualquer um, mesmo aqueles que não são juristas!

A questão que mais me chamou atenção no livro foi a maneira como o alemão não judeu é retratado: aquele que não participou da guerra, que não tem qualquer responsabilidade diante dos acontecimentos inquestionavelmente absurdos que aconteceram deve se sentir culpado pelos seus antecessores na história político-social do país?

Uma vez eu vi uma entrevista, na qual o entrevistado dizia que as gerações 80/90 lutavam, nos anos posteriores à ditadura militar, contra a direita, incansavelmente, sem qualquer razão. Não olhávamos para o futuro, ficávamos somente presos ao passado…

Ora, nós não fomos diretamente afetados! Não sofremos na pele o que nossos antecessores sofreram, tampouco fomos responsáveis pelo seu sofrimento! Lutamos a troco de quê? Qual é a razão de repetirmos padrões?

Voltando ao livro, o narrador mostra o conflito interno que vive: como pode amar alguém que foi responsável por tantas coisas abjetas? Após o seu encontro com Hanna, toda a sua vida foi levada a uma outra estrada daquela previamente traçada, todas as suas atitudes e pensamentos tomaram novo rumo e é interessante ver nele o espelho de nós: vivemos diuturnamente em conflito, com grandes desafios morais e éticos à nossa volta, aguardando uma atitude que possa alterar o foco da questão.

Além disso, vemos que, apesar de tudo, existe amor. É um amor realista, ciente de si e da realidade que o moldou, nada semelhante às ideias idiotas que alguns veículos de cultura transmitem: o sentimento é problemático, torto e, ainda assim, lhe é permitido permanecer, aguentar o que há de pior no seu contexto.

Me interessei também pelas pesquisas do narrador (seriam elas próprias de Bernhard Schlink?) no âmbito do direito, especialmente no tocante aos artigos do código penal, interessante notar o conceito de ordem mundial que deve ser sempre zelada, como se já estivéssemos em ordem antes do fato delituoso.

Recomendo a leitura.

Foi transformado em filme pelo diretor Stephen Daldry e teve como atores principais Kate Winslet (ganhou o Oscar pelo papel), Ralph Fiennes e David Kross.

O livro está à venda em todas as livrarias e o seu preço médio é de R$ 25.

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